Leitura
São João da Boa Vista recebeu levas de imigrantes em dois momentos distintos: antes da ferrovia e depois dela. Antes, chegaram para construir. Depois, para ficar.
Em 1877, os irmãos Guilherme e Nicolau Rehder contrataram trabalhadores da Holstein, da Suécia, da Dinamarca e da Áustria para dois trabalhos: a Fazenda Barreiro e a construção do Ramal de Caldas da Companhia Mogiana. Esses imigrantes chegaram por contrato e por necessidade — a Europa do final do século XIX expulsava gente. Alguns se foram com a obra. Outros ficaram e criaram família. Os Rehder eram eles mesmos imigrantes que haviam encontrado em São João uma cidade em crescimento.
Com a inauguração da ferrovia em 1886 e a expansão cafeeira que se seguiu, vieram os italianos. Vieram por colonato — contratos de trabalho nas fazendas de café que prometiam moradia, roça de subsistência e parte da colheita. Havia famílias italianas na Fazenda do Refúgio, de Ernesto de Oliveira, e em outras propriedades do município. Muitas dessas famílias migraram depois para cidades vizinhas como Andradas, levando a memória de São João consigo.
Depois vieram os sírio-libaneses, os espanhóis e os portugueses — em geral para o comércio, os ofícios e os serviços. Carlos Lühmann, descendente de alemães e fundador do jornal O Município em 1906, é um exemplo de como a segunda geração de imigrantes se integrou à vida intelectual e pública da cidade.
Cada grupo trouxe uma presença diferente: os nórdicos e germânicos chegaram pela ferrovia; os italianos chegaram pelo café; os sírio-libaneses chegaram pela loja e pelo balcão. Juntos, moldaram sobrenomes, receitas, crenças e modos de viver que ainda estão na cidade.