Leitura
As fazendas como base da ocupação rural, da economia inicial e das relações sociais do município.
São João da Boa Vista foi, antes de tudo, uma cidade rural. Não no sentido pejorativo — mas no sentido de que sua fundação, seu crescimento e sua identidade foram moldados pela terra, pelos animais, pelas estações e pelo trabalho agrícola. A fazenda não era o passado da cidade. Era a sua base.
A Fazenda São João dos Pinheiros, do padre Ramalho, foi a primeira grande unidade produtiva documentada. Em 1829, possuía engenho de açúcar e aguardente e entre 49 e 54 escravizados. Em 1823, Ramalho já produzia e comercializava. A fazenda conectava São João ao mercado regional — açúcar, aguardente, madeira, gado — antes mesmo de haver ferrovia.
Ao redor da fazenda de Ramalho existiam outras propriedades. A Fazenda Boa Vista deu o complemento ao nome da cidade. A Fazenda Barreiro, mais tarde contratada pelos irmãos Rehder para receber os primeiros imigrantes alemães, era outra referência no mapa rural. Havia fazendas de café, de cana, de fumo e de subsistência — e havia as roças dos agregados e posseiros, menores e menos documentadas, que alimentavam famílias sem aparecer nos registros oficiais.
A partir de 1850, o café entrou com força no município. As terras roxas e o clima ameno do planalto favoreciam a lavoura. Fazendeiros enriquecidos pelo café passaram a investir em construção urbana, em comércio, em instrução — e a pressionar por ferrovia. Em 1889, o município contava com cerca de 25 máquinas de café, 30 engenhos de cana, diversas serrarias e olarias, e uma população de aproximadamente 16.000 habitantes, dos quais cerca de 3.000 viviam na sede urbana. O restante vivia nas fazendas e nos bairros rurais.
O café também trouxe imigrantes. Com a abolição da escravidão em 1888, os fazendeiros precisaram de outro tipo de mão de obra. Os colonos italianos chegaram em grande número — famílias inteiras, contratadas para trabalhar em regime de colonato nas fazendas de café. Havia famílias italianas que trabalharam na Fazenda do Refúgio, pertencente a Ernesto de Oliveira, no município de São João da Boa Vista, e depois se transferiram para cidades vizinhas como Andradas. Esse fluxo de famílias entre fazendas e municípios mostra como o café reorganizou não apenas a economia, mas a demografia do interior paulista.
Antes dos italianos, vieram os alemães. Em 1877, os irmãos Guilherme e Nicolau Rehder contrataram imigrantes alemães, suecos, dinamarqueses e austríacos para dois propósitos: trabalhar na Fazenda Barreiro e construir o ramal ferroviário de São João da Boa Vista a Poços de Caldas. A construção foi a mais difícil e onerosa da Companhia Mogiana, pelo terreno acidentado entre Águas da Prata e Cascata. O empreiteiro responsável foi Nicolau Rehder, que sub-empreitou os engenheiros Brodowsky e Paula Souza.
Os Rehder deixaram marcas profundas na cidade. Nicolau Rehder construiu o sobrado que virou o Palácio Episcopal. Reinaldo Rehder Benedetti — um de seus descendentes — foi um dos membros da comissão de 2020 que estabeleceu a data de fundação. A presença alemã em São João da Boa Vista não foi apenas de passagem: tornou-se parte da memória local.
A cidade rural de São João da Boa Vista não ficou no passado. Ela continua na Serra da Paulista, com suas 470 pequenas propriedades rurais de média de 20 hectares. Continua na feira livre, que une produtores do interior ao consumidor urbano. Continua na EAPIC, que a cada ano reúne pecuaristas, produtores, industriais e visitantes em torno do Recinto de Exposições José Ruy de Lima Azevedo. A história rural precisa ser contada até o presente — e esse presente está em entrevistas, não apenas em documentos.
Fontes: Prefeitura Municipal; Câmara Municipal; Revista Atua (jan. 2025 e Serra da Paulista); documentos da Companhia Mogiana; imigração alemã em São Paulo (Wikipedia e site imigracaoalemasp).