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História

Freguesia de São João

A elevação a freguesia em 1838 como passo religioso e administrativo na consolidação da povoação.

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A elevação a freguesia em 1838 como passo religioso e administrativo na consolidação da povoação.

Antes de haver rua, havia capela. Antes de haver escola, havia batistério. Antes de haver Câmara, havia Assembleia Paroquial. No interior paulista do século XIX, a instituição religiosa era o lugar onde a comunidade se constituía como tal — não apenas espiritualmente, mas administrativamente, socialmente e simbolicamente.

A capela rústica de Santo Antônio, construída por Antônio Machado em torno de 1824, era pequena: madeira, barro, teto de sapé. Não tinha sino. Provavelmente não tinha sacristia. Mas era o centro em torno do qual as famílias construíam suas casas, enterravam seus mortos, batizavam seus filhos e organizavam as festas do calendário religioso. Campo Triste e Ribeirão dos Porcos ficavam a léguas de distância. A capela ficava aqui, na confluência dos caminhos.

Em 1831, João Ramalho construiu a capela de São João Batista — maior, mais sólida, com cemitério em frente. A nova capela ficava próxima ao que hoje é o Banco do Brasil. A mudança não foi apenas religiosa. Foi política. Ramalho escolheu um local com mais espaço para expansão urbana — o que desagradou os moradores que haviam construído suas casas próximas à capela de Santo Antônio, na região que se tornaria a Capelinha.

Em 1832, o Bispo de São Paulo concedeu a provisão que tornou a capela curada. Era o reconhecimento eclesiástico do núcleo. Com o nome São João da Boa Vista, a capela deixava de ser apenas um ponto de culto particular e passava a ser uma instituição pública — com registro, com padre, com obrigações de manter batistérios, registros de óbito e de casamento. Esses registros são, hoje, algumas das fontes mais importantes para a história local.

A elevação a freguesia e a Assembleia Paroquial

Em 28 de fevereiro de 1838, São João da Boa Vista foi elevada à categoria de freguesia. Essa passagem era decisiva: significava o reconhecimento da comunidade como núcleo religioso e administrativo estável, com jurisdição própria. A primeira Assembleia Paroquial aconteceu em 1842, dezesseis anos depois da primeira missa. Os eleitores escolhidos foram: padre João Ramalho, os irmãos Manoel e José Tavares Coimbra, padre Joaquim Feliciano de Amorim Sigar e Joaquim Gonçalves Valim. Nomes que voltarão em outros capítulos — porque a política e a religião se misturavam, naquele tempo, de maneira indissolúvel.

Em 1836, o padre Sigar havia sido nomeado para a capela com uma missão específica: urbanizar. Foi ele quem demarcou as ruas, dividiu os lotes, estabeleceu as primeiras referências de um plano urbano. Uma cidade começa quando alguém risca uma linha no chão e diz: aqui é a rua. Sigar foi esse alguém.

A Igreja Matriz foi inaugurada em 1853, após anos de planejamento e disputas sobre localização. Ela ficava onde hoje está a Catedral, na Praça da Catedral — lugar que a cidade ainda chama assim. Quando João Ramalho morreu ali, durante a missa de inauguração, o prédio que ele havia planejado tornou-se também seu túmulo simbólico.

A Catedral, como hoje é conhecida, a Igreja do Rosário — ligada às irmandades de negros e à devoção popular — e o Museu de Arte Sacra, fundado em 1987 no térreo do Palácio Episcopal com um acervo de paramentos dos séculos XIX e XX, imagens em madeira do século XVIII, objetos religiosos, pinturas e mobiliário, formam uma camada longa da memória religiosa da cidade. O Palácio Episcopal, por sinal, foi construído por Nicolau Rehder em 1890 e reformado em 1910 para ser residência do fazendeiro Cristiano Osório de Oliveira — antes de se tornar a sede do Bispado em 1960.

Fontes: Prefeitura Municipal; Câmara Municipal; Mulheres de São João (Theatro e história geral); Diocese de São João da Boa Vista.

A vida política de São João da Boa Vista não começou com a Câmara. Começou com a capela, com a Assembleia Paroquial, com as disputas por terras e por posição social entre as famílias que chegaram nas décadas de 1820 e 1830. A política institucional veio depois, mas não apagou as tensões que já estavam lá.

A elevação a freguesia em 28 de fevereiro de 1838 foi o primeiro passo formal. Em 1859, São João foi elevada a vila, ainda subordinada a Mogi Mirim. A primeira eleição municipal ocorreu em 3 de julho de 1859. Em 7 de novembro de 1859, a Câmara reuniu-se pela primeira vez, numa casa alugada na Rua São João — onde hoje funciona o Senac.

O mais votado na eleição de julho de 1859 foi José Tavares Coimbra — e, conforme a Constituição do Império, o mais votado assumia a presidência. Os demais eleitos foram: Capitão Luiz Antônio de Oliveira, Capitão Joaquim José de Oliveira, Capitão José Garcia de Oliveira Filho, Capitão Higino Ignácio Brandão, Alferes José Antônio Barbosa e Joaquim Gonçalves Valim. Luiz Antônio de Oliveira não assumiu por ser irmão de Joaquim José, que havia recebido mais votos. Em seu lugar, tomou posse Cândido Pires Sabino Goulardins. As patentes militares — capitão, alferes — eram comuns entre os vereadores. A Guarda Nacional estruturava a hierarquia local.

A Câmara de São João da Boa Vista possui um acervo de atas que começa em 1859 e continua até hoje. Esses livros são um dos documentos mais importantes para a história local — e um dos menos explorados pela pesquisa histórica. Numa ata de 1860 pode estar o registro da primeira discussão sobre a criação de uma escola. Numa de 1880, a discussão sobre o traçado de uma rua que existe até hoje. Numa de 1886, a decisão sobre o recebimento do imperador na inauguração da ferrovia.

A Câmara publicou em 2009, no contexto dos seus 150 anos, uma pesquisa histórica do professor João Baptista Scanapiecco intitulada Fragmentos de uma história a ser contada. Esse material é o ponto de partida, não o ponto de chegada, para a história política da cidade.

A emancipação de 1880 e seus desdobramentos

Em 24 de abril de 1880, São João da Boa Vista foi elevada à categoria de município, emancipando-se de Mogi Mirim. Na época, o município incluía as vilas de Aguaí, Águas da Prata e Vargem Grande do Sul, que se emanciparam ao longo das décadas seguintes. Em 1887, o prédio da Câmara e Cadeia foi inaugurado. O projeto era do engenheiro militar Euclides da Cunha — o mesmo que anos depois escreveria Os Sertões. O prédio, de fachada em alvenaria de tijolos sem argamassa de revestimento, com pilastras jônicas e dóricas, abrigava no térreo a cadeia e no andar superior a Câmara. Foi reformado em 1905, 1924 e novamente em 1999–2000, quando passou a abrigar o Senac.

Fontes: Câmara Municipal (histórico institucional, Scanapiecco 2009); Prefeitura Municipal; Mulheres de São João (Câmara e Cadeia/Senac); IBGE.

Tema
Igrejas, fe e arte sacra

Conteúdos deste conjunto

O estatuto religioso-administrativo e seu marco cronológico.

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Fontes e notas

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2 itens

Material base do acervo

Capelas, freguesia e religião no início da cidade

A capela como centro do mundo

Material base do acervo

Da freguesia à cidade política: Câmara, vila e município

Datas que mudam o status