Leitura
A Academia informa a inauguração do Memorial Orides Fontela em seu espaço, preservando cinzas, documentos, memória literária e uma ponte entre a poeta, a UniFAE e a cidade.
A Academia de Letras de São João da Boa Vista foi fundada em 9 de setembro de 1971. Desde o início, a questão de quem tinha lugar nessa instituição era política: academias de letras de cidades do interior costumavam ser espaços masculinos, brancos e de classe média alta. O projeto Mulheres de São João, organizado por Neusa Menezes, é em parte uma resposta a esse apagamento: reúne 77 histórias de mulheres que atuaram na cidade, quatro dossiês temáticos e uma coleção de fotografias e documentos. Cada história é um argumento contra o esquecimento.
Pagu: a sanjoanense que não cabia em lugar nenhum
Patrícia Rehder Galvão nasceu em 9 de junho de 1910, em São João da Boa Vista. A família se mudou para São Paulo quando ela tinha dois anos. Quase nada de sua vida aconteceu na cidade natal — mas São João a reivindica, e com razão: a cidade que uma pessoa carrega não é necessariamente onde ela viveu, mas onde foi gerada.
Pagu, como ficou conhecida, era escritora, poeta, diretora de teatro, tradutora, designer e jornalista. Quando tinha dezoito anos, os modernistas de São Paulo a "adotaram" — Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral a introduziram no círculo antropofágico, onde ela não tardou a se tornar mais radical do que os professores. Em 1930, casou-se com Oswald de Andrade, com quem ficou até 1934.
Em 1931, participou da organização de uma greve de estivadores no porto de Santos. Foi presa — a primeira de 23 prisões que viria a sofrer em sua vida. Tornou-se a primeira mulher presa no Brasil por motivações políticas. A ditadura Vargas a torturou. Ficou presa por cinco anos ao todo. Saiu mais radical do que entrou.
Em 1933, publicou Parque Industrial sob o pseudônimo Mara Lobo — o Partido Comunista havia exigido o anonimato. O livro narra a vida de operárias têxteis em São Paulo e é considerado o primeiro romance proletário da literatura brasileira. Não havia nada como aquele livro antes — personagens pobres, trabalhadoras, imigrantes, negras, sem redenção fácil nem final feliz. Pagu rompeu com o Partido Comunista em 1945 e passou a trabalhar como crítica de teatro em Santos, onde morreu em 12 de dezembro de 1962, aos 52 anos, depois de um tratamento de câncer malsucedido.
O Centro Cultural Patrícia Rehder Galvão, em São João da Boa Vista, abriga o Memorial Pagu e o Arquivo Público e Histórico Matildes Rezende Lopes Salomão. É o lugar onde a cidade guarda a memória de uma mulher que a cidade raramente caberia.
Orides Fontela: a poeta do córrego e da abstração
Orides de Lourdes Teixeira Fontela nasceu em 2 de abril de 1940, em São João da Boa Vista. Cresceu na cidade, publicou seus primeiros versos em 1956 no jornal O Município — ainda adolescente — e em 1967 foi para São Paulo cursar Filosofia na USP, formando-se em 1972. Davi Arrigucci Jr. — crítico literário, professor da USP e também sanjoanense — foi seu amigo e apoiador desde os tempos da cidade natal.
Em 1969, com ajuda de Arrigucci, publicou Transposição — seu primeiro livro, pelo Instituto de Espanhol da USP. Os poemas eram curtos, densos, cheios de elipses. A influência do pensamento fenomenológico aparecia na forma como Orides tratava a linguagem: não como instrumento de comunicação, mas como coisa em si. Seguiram-se Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986) e Teia (1996). Ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia em 1983 e o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte em 1996.
Orides viveu em extrema simplicidade. Os prêmios pagavam pouco. Ela morava em quartos baratos, comia sopa fria, recusava compromissos mundanos. Um perfil publicado pela Revista Bula a descreveu como "a poeta que o Brasil deixou morrer em silêncio". Em 2 de novembro de 1998, morreu em Campos do Jordão, São Paulo.
Em 2026, Orides Fontela é a autora homenageada da Flip — a Festa Literária Internacional de Paraty. A cidade que publicou seus primeiros versos no jornal local e que quase a esqueceu terá agora seu nome nos cartazes de um dos maiores festivais literários do mundo.
Em 1956, um editor d'O Município encontrou no correio um envelope sem remetente claro. Dentro, um poema datilografado. O nome embaixo: Orides Fontela. Dezesseis anos. Ela não veio pessoalmente entregar — mandou pelo correio porque tinha vergonha. O editor publicou. Na semana seguinte, a menina foi até a redação timidamente perguntar se mais alguém havia ligado sobre o poema. Ele disse que sim. Ela sorriu e foi embora sem dizer mais nada.
Fontes: Academia de Letras de São João; Mulheres de São João (Neusa Menezes); Wikipedia (Pagu, Orides Fontela); InfoEscola (Pagu); Pagu.com.br (Parque Industrial); Revista Bula (Orides); Flip 2026.
Orides Fontela nasceu em São João da Boa Vista em 21 de abril de 1940 e morreu em Campos do Jordão em 2 de novembro de 1998. Sua poesia, breve, densa e luminosa, ocupa lugar importante na literatura brasileira. Falar de Orides é falar de uma escrita em que poucas palavras carregam grande profundidade.
Filha única de Álvaro Fontela e Laurinda Teixeira Fontela, nasceu em família operária e letrada. Desde criança escrevia versos e cedo começou a publicar em jornais e revistas estudantis. Ainda nos anos 1960, quando morava em São João da Boa Vista, foi descoberta pelo conterrâneo e crítico literário Davi Arrigucci Jr., que reconheceu a força de sua poesia e a incentivou.
Mudou-se para São Paulo e estudou Filosofia na Universidade de São Paulo. Em 1969, publicou seu primeiro livro, “Transposição”. Depois vieram “Helianto”, em 1973; “Alba”, em 1983, Prêmio Jabuti; “Rosácea”, em 1986; e “Teia”, em 1996. Os quatro primeiros livros foram reunidos em “Trevo”. Sua obra alcançou edições internacionais e, postumamente, foi reunida em “Poesia Reunida”.
Professora primária e bibliotecária, Orides viveu em meio a grandes dificuldades. De temperamento difícil, personalidade lacônica e vida solitária, tinha na poesia sua principal referência. Era extremamente zelosa de sua obra e dominava sua estrutura com precisão. Boêmia e depressiva, faleceu precocemente em um sanatório em Campos do Jordão.
Antonio Candido afirmou que Orides possuía um dos dons essenciais da modernidade: dizer densamente muita coisa por meio de poucas palavras. Seu verso, breve e fulgurante, convida o leitor a retornar várias vezes em busca de novas possibilidades de sentido. Ivan Marques observou que sua poesia é marcada por símbolos frescos, inspirados e intensamente vividos. Donizete Galvão destacou sua concisão, dureza óssea e ausência de sentimentalismo.
Sua poesia não se explica por excesso, mas por concentração. Em poemas como “Coruja”, Orides trabalha com silêncio, luz mínima, tensão e precisão. Sua palavra parece cortar o mundo até chegar ao essencial.
Em 2007, em homenagem póstuma, Orides Fontela foi admitida na Ordem do Mérito Cultural, na classe Grã-Cruz, por suas contribuições à cultura brasileira. É um nome importante e respeitado da literatura nacional.
Orides Fontela é parte essencial da memória cultural de São João da Boa Vista.