Memória Viva São João da Boa Vista
Expansão Narrativa v1

Capítulo · Fundação

Fundação: a cidade entre 1821 e 1824

Por que a data importa Em muitas cidades brasileiras, a data de fundação é um dado tranquilo.

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Por que a data importa Em muitas cidades brasileiras, a data de fundação é um dado tranquilo. Em São João da Boa Vista, ela foi um campo de disputa por décadas — e a história dessa disputa é ela própria uma parte importante da história da cidade. O IBGE ainda registra 1821 como data de fundação. Em junho, quando a cidade comemora seu aniversário, são as contas baseadas em 1824 que valem — graças a uma lei municipal de 2020 que encerrou formalmente a divergência. Mas o conflito entre as duas datas não é apenas uma questão de arquivo. É uma questão de memória, de poder narrativo e de como uma cidade decide quem são seus fundadores. A versão de 1976 e sua influência A data de 1821 tem origem precisa e rastreável. Ela apareceu pela primeira vez como data de fundação — não como data de chegada de uma família a uma fazenda — no livro História de São João da Boa Vista, publicado em 1976 pela escritora Maria Leonor Alvarez Silva. À época, Maria Leonor era editora do jornal O Município, o mais influente da cidade. Com essa posição, a versão que ela defendia passou a aparecer nas felicitações de aniversário publicadas no jornal, depois nas publicações institucionais, depois nos discursos — até que, no início dos anos 1990, a data de 1821 passou a ser usada nas celebrações como se fosse a data oficial. A tese de Maria Leonor era a seguinte: em 1821, o guarda-mor Antônio Dias de Oliveira e sua esposa Ana Maria Franco compraram a Fazenda Campo Triste dos herdeiros de José Dutra e para lá se mudaram. A família foi recenseada em 1822. Segundo a autora, seria ali, naquele latifúndio, que a cidade teria nascido. Há dois problemas centrais nessa tese. O primeiro é geográfico: a Fazenda Campo Triste fica nas imediações do atual pedágio da rodovia que liga São João a Aguaí — uma área que até hoje a malha urbana da cidade não alcançou. Se ali fosse o berço da cidade, o crescimento urbano teria se dado naquela direção. Não foi. O segundo problema é que a própria Maria Leonor, antes de publicar o livro de 1976, havia escrito na Enciclopédia dos Municípios Brasileiros do IBGE, em 1958, que as terras foram ocupadas por "Antônio Machado e seus cunhados, vindos de Itajubá, no ano de 1822 ou 1824". Nenhuma menção a 1821. Nenhuma menção ao guarda-mor como fundador. Ela mesma havia sido outra pessoa antes de mudar de posição. A tradição de quase dois séculos Em quase vinte publicações produzidas entre 1873 e 1975 — almanaques, livros de história, enciclopédias e edições especiais de jornais — a fundação de São João da Boa Vista é atribuída a 1824 e ao monsenhor João Ramalho. O Almanak da Província de São Paulo de 1873, organizado por Antônio José Batista de Luné e Paulo Delfino da Fonseca, já assim registrava. O livro O Município de São João da Boa Vista na Exposição Nacional de 1908, organizado por Carlos Kiellander, confirmava. Os Subsídios à História de São João da Boa Vista, do dr. Theophilo de Andrade, idem. A própria Enciclopédia dos Municípios Brasileiros do IBGE de 1958, escrita por Maria Leonor, apontava 1822 ou 1824. O jornal O Município publicara em 1910 material que situava a fundação em 1824. A História Administrativa e Política de São João da Boa Vista, de 1970, do dr. José Osório de Oliveira Azevedo, igualmente. Ou seja: a data de 1824 não é nova nem alternativa. É a data que a cidade usou por mais de 150 anos — até que um livro publicado em 1976 a contestou e, pela influência de sua autora, acabou se tornando a versão dominante nas décadas seguintes. A comissão de 2020 e a lei Em 3 de janeiro de 2020, o prefeito Vanderlei Borges de Carvalho nomeou, por portaria, uma comissão de estudos para encerrar a divergência. Os nove membros foram: Jaime Splettstoser Júnior (historiador e escritor), Antonio Carlos Rodrigues Lorette (professor universitário e arquiteto), Rodrigo A. Rossi Falconi (médico e historiador), João Batista Scanapiecco (professor e historiador), Waldemir Sanches Carbonara (professor e pesquisador), Lucelena Maia (presidente da Academia de Letras), Ana Lúcia Sguassabia Silveira Finazzi (pesquisadora), Reinaldo Rehder Benedetti (jornalista e servidor público) e Hélio Correa da Fonseca Filho (diretor de Cultura). A comissão se reuniu em 14 de janeiro de 2020, analisou publicações e documentos, e votou unanimemente por 1824. O relatório foi entregue ao prefeito em 18 de fevereiro. Em 24 de março de 2020, a Câmara Municipal aprovou e o prefeito sancionou a Lei Ordinária nº 4.643, que estabeleceu oficialmente 24 de junho de 1824 como data de fundação do município de São João da Boa Vista. No dia 24 de junho de 1824, era véspera de São João. O padre João José Vieira Ramalho — chegado do Porto, em Portugal, havia mais de vinte anos — celebrou a primeira missa na capela de madeira e barro às margens do córrego. Do lado de fora, homens, mulheres e crianças que haviam chegado de Minas Gerais e de fazendas vizinhas olhavam o padre, olhavam o céu cor de laranja sobre a Mantiqueira, e sabiam que aquele lugar passava a ter outro nome. Não era mais apenas o córrego. Era São João da Boa Vista. Com a lei, a cidade ficou mais nova — passou a comemorar, em junho de 2020, 196 anos em vez dos 199 que contaria se a base fosse 1821. Mas ganhou em precisão histórica o que perdeu em anos. Fontes: Lei Ordinária nº 4.643/2020; relatório da comissão (fev. 2020); O Município (26/2/2020 e 18/6/2021); Almanak da Província de São Paulo (1873); Enciclopédia dos Municípios Brasileiros/IBGE (1958); Câmara Municipal. | O que ainda falta: Relatório integral da comissão de 2020 (o texto completo, não apenas o sumário); documentos paroquiais de 1824; edições do Almanak de 1873 e do livro de Carlos Kiellander (1908) digitalizadas ou em arquivo físico.