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Três personagens, um processo Fundar uma cidade não é um ato singular. É um processo — e um processo coletivo. No caso de São João da Boa Vista, três personagens concentram os gestos fundadores: Antônio Machado de Oliveira, que chegou com as terras e a capela; Mariana Vicência, sua esposa, que assinou a doação ao lado do marido; e João José Vieira Ramalho, que chegou antes, ficou mais tempo e arquitetou o futuro da cidade. Nenhum dos três é dispensável. Antônio Machado de Oliveira O nome completo era Antônio Manoel de Siqueira, mas ficou conhecido como Antônio Machado de Oliveira. Veio de Itajubá, no sul de Minas Gerais, com seus cunhados Inácio Cândido e Francisco Cândido. Chegaram às vésperas do dia 24 de junho de 1824 — a festa de São João Batista — e arrancharam na confluência do Córrego São João com o Rio Jaguari. Apossaram-se de terras que iam desde o que é hoje o centro urbano até o Rio Claro. Antônio Machado construiu uma capela rústica: madeira, barro, teto de sapé, dedicada a Santo Antônio. Ficava na confluência das ruas que hoje se chamam Aristides Lobo e General Carneiro. Anos depois, o padre João Ramalho o convenceu a mudar o orago — de Santo Antônio para São João Batista. Foi esse gesto, aparentemente pequeno, que determinou o nome que a cidade carregaria para sempre. Sobre a vida de Antônio Machado fora do ato fundador, pouco se sabe. Não há registro de onde morreu, nem de como viveu os anos seguintes. A história local o trata como um nome de entrada e o apaga no capítulo seguinte. A pesquisa completa do livro precisa buscar inventários post-mortem, registros de terra e menções em documentos paroquiais que permitam saber mais sobre quem ele foi além do gesto de 1824. Mariana Vicência Mariana Vicência foi a esposa de Antônio Machado. A doação de terras para a formação do futuro povoado — o gesto que deu origem ao patrimônio inicial da cidade — é registrada como ato do casal. Sem Mariana Vicência, não há doação. Sem doação, não há cidade organizada. E, ainda assim, o nome dela quase sempre desaparece das narrativas, deixando Antônio Machado sozinho no palco. Esse apagamento é recorrente na história local brasileira. As mulheres que co-assinaram, co-doaram, co-fundaram raramente aparecem com o mesmo peso que os homens. O projeto Mulheres de São João, organizado por Neusa Menezes, tenta corrigir parte dessa lacuna — mas o caso de Mariana Vicência ainda espera pesquisa mais profunda: quem era ela antes de se casar, de onde vinha, o que fez depois. João José Vieira Ramalho João José Vieira Ramalho chegou ao Brasil em 1800, vindo de Portugal — provavelmente do Porto, embora a origem exata precise de confirmação em registros eclesiásticos. Quando Antônio Machado chegou em 1824, Ramalho já estava estabelecido na região. Em 1823, havia comprado terras próximas ao Ribeirão dos Porcos e fundado a Fazenda São João dos Pinheiros. Ramalho não era apenas padre. Era também fazendeiro, planejador urbano e articulador econômico. Em 1831, construiu a capela de São João Batista — maior e mais sólida que a de Santo Antônio de Antônio Machado — com cemitério em frente, próxima ao que hoje é o Banco do Brasil. Em 1832, obteve do Bispo de São Paulo a provisão que tornava a capela curada e lhe dava o nome definitivo: São João da Boa Vista. Em 1824, na primeira Assembleia Paroquial, foi eleito administrador da freguesia. Em 1836, o padre Joaquim Feliciano de Amorim Sigar foi nomeado para a capela — e foi Sigar quem coordenou a demarcação das ruas e a distribuição de lotes, organizando o núcleo urbano inicial. Em 1846, Ramalho foi reeleito na segunda Assembleia Paroquial, com maioria de votos, e retomou o trabalho de urbanização — dividindo a cidade em quarteirões, distribuindo terras, planejando a Igreja Matriz. Esse processo não foi tranquilo. Os moradores da região norte, onde fica a Capelinha, ficaram descontentes com as decisões de Ramalho sobre a localização da Matriz. O descontentamento cresceu em 1848, quando os planos para a construção da Igreja Matriz foram apresentados. Em 1853, a Matriz foi finalmente inaugurada. No meio da missa solene de inauguração, João Ramalho caiu desfalecido. Morreu ali. Na manhã de 1853, com a Igreja Matriz recém-inaugurada cheirando a cal e incenso, padre João Ramalho estava no altar. Cinquenta anos de Brasil, vinte e dois de capela, dezenove de paróquia. Ele havia chegado jovem de Portugal e viu a savana virar cidade. No meio da missa, sem nenhum aviso, caiu. Diz a tradição que morreu ali, no altar da Matriz que ele mesmo havia planejado. Era o fim do homem e o começo do monumento. A sombra da escravidão nos gestos fundadores Antônio Machado e João Ramalho eram figuras do seu tempo — o que significa que sua prosperidade dependia do trabalho de pessoas escravizadas. Em 1829, a Fazenda São João dos Pinheiros possuía engenho de açúcar e aguardente e entre 49 e 54 escravizados, dependendo da fonte consultada. Esses homens e mulheres cortavam cana, operavam o engenho, carregavam sacos, cuidavam de animais, cozinhavam, lavavam, construíam. Sem eles, não havia fazenda. Sem fazenda, não havia o capital que sustentou a capela, a doação de terras e o projeto urbano de Ramalho. A cidade que surgiu foi construída por muitas mãos — a maioria delas não registrada nos documentos oficiais. Fontes: Prefeitura Municipal (histórico oficial); Câmara Municipal; Revista Atua (jan. 2025); ASBRAP Revista nº 16; Mulheres de São João (Mariana Vicência e apagamento feminino); comissão de 2020. | O que ainda falta: Inventários post-mortem de Antônio Machado e João Ramalho; registros de batismo e casamento de filhos do casal; origem exata de Ramalho em Portugal; inventário completo de escravizados da Fazenda São João dos Pinheiros com nomes.