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A fundação de São João da Boa Vista aparece como um debate histórico documentado, não como uma frase decorativa. Durante décadas, a data de 1821 circulou como referência oficial ou habitual. Ela aparece ainda em bases institucionais e orientou comemorações por quase trinta anos. A pesquisa consolidada, porém, mostra que essa versão tem origem identificável e tardia.
A data de 1821 foi difundida a partir do livro História de São João da Boa Vista, publicado em 1976 por Maria Leonor Alvarez Silva, escritora e editora de O Município. A obra associou a fundação à chegada do guarda-mor Antônio Dias de Oliveira à Fazenda Campo Triste. Com a força editorial do jornal e a repetição em publicações de aniversário, a versão ganhou circulação pública. O problema apontado pelo material-base é que fontes anteriores indicavam outra tradição.
Quase vinte publicações, entre almanaques, livros, enciclopédias e edições comemorativas, registravam 1824 como ano de fundação, com papel central de Antônio Machado, seus cunhados e o monsenhor João José Vieira Ramalho. O Almanak da Província de São Paulo de 1873 já apontava essa direção. A Enciclopédia dos Municípios Brasileiros do IBGE, de 1958, também não sustentava a versão de 1821 como fundação nos termos que se consolidariam depois.
Em 2020, a Prefeitura nomeou comissão de estudos para enfrentar a divergência. O grupo reuniu pesquisadores e representantes da cultura local: Jaime Splettstoser Júnior, Antonio Carlos Rodrigues Lorette, Rodrigo A. Rossi Falconi, João Batista Scanapiecco, Waldemir Sanches Carbonara, Lucelena Maia, Ana Lúcia Sguassabia Silveira Finazzi, Reinaldo Rehder Benedetti e Hélio Correa da Fonseca Filho. A comissão votou por 1824 e o relatório foi entregue em fevereiro de 2020. A Lei Ordinária nº 4.643, de 24 de março de 2020, oficializou 24 de junho de 1824 como data de fundação.
O argumento geográfico também é decisivo: a Fazenda Campo Triste, vinculada à versão de 1821, fica nas proximidades do atual pedágio da rodovia que liga São João a Aguaí, área que não corresponde ao núcleo urbano que se consolidou. A narrativa de 1824 se relaciona ao encontro do Córrego São João com o Rio Jaguari, à capela, aos primeiros arranjos urbanos e à ação de Antônio Machado e João Ramalho.
As duas datas fazem parte da história da memória local, mas não aparecem como equivalentes. A data oficial do município é 24 de junho de 1824. A data de 1821 permanece como versão historiográfica difundida a partir de 1976 e refutada pela comissão de 2020.