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A história das artes plásticas em São João da Boa Vista passa por um grupo de nomes que, nas primeiras décadas do século XX, ajudou a formar um ambiente de criação, aprendizado e circulação artística. Entre eles estão Gilmar Nóbrega, Izauro Bulcão, Josué “Aldo” Blasi, Fernando Arrigucci, Hugo Andrade, Tânia Meerson e Eliseu Ferreira Diniz.
Gilmar Paulo Nóbrega, nascido em São Paulo em 1919, era filho de Gilberto Nóbrega, gerente do Banco do Brasil em São João da Boa Vista entre 1927 e 1934. Na década de 1930, ainda adolescente, estudou com Luiz Gualberto e Araújo Lima e participou de uma exposição artística com dezoito quadros. Sua produção chamou a atenção da imprensa, que destacou uma alegoria de forte caráter paulista e nacional, marcada pela figura do bandeirante, pela bandeira brasileira e pelo lema “Hoje, amanhã e sempre, tudo por São Paulo, tudo pelo Brasil”. Era uma pintura de colorido fino, revelando concepção feliz e sensibilidade precoce.
Izauro Bulcão, nascido em São José do Rio Pardo em 1899, mudou-se para São João da Boa Vista em 1926 e permaneceu na cidade até 1947. Comerciante, foi proprietário da Casa Bulcão, papelaria instalada na Rua Getúlio Vargas, especializada em artigos escolares, livros, brinquedos e instrumentos musicais. Violinista de talento, foi convidado por Joaquim de Souza, locador do Theatro Municipal, a atuar como primeiro violino da orquestra que tocava no tempo do cinema mudo. Além da música, dedicou-se à pintura, estudando com Luiz Gualberto e participando da Primeira Exposição Coletiva. Sua obra era vista como a de um artista do som que também se tornava artista da cor, revelando nas telas a quietude das águas, as tardes sertanejas e a delicadeza de sua alma.
Josué “Aldo” Blasi, nascido em São João da Boa Vista em 1905, foi comerciante, proprietário da conhecida Casa Blasi, na Praça Roque Fiori. Inteligente, habilidoso e profundamente ligado à arte, interessava-se por desenho, pintura, música clássica e ópera. Pintou com Araújo Lima, Luiz Gualberto e Attílio Baldocchi, e tornou-se também um incentivador dos colegas, fornecendo tintas, pincéis e telas, além de adquirir muitas obras. Foi, nesse sentido, um verdadeiro mecenas local. Sua pintura foi descrita como calma, serena, sem contrastes violentos, reveladora de um espírito voltado à contemplação.
Fernando Arrigucci, nascido em São João da Boa Vista em 1904, foi artista múltiplo: pintor, músico, poeta, trovador e contista. Clarinetista da Banda Santa Cecília, professor particular e criador da Orquestra Arrigucci, escreveu arranjos, compôs valsas, choros, maxixes, dobrados e marchas. Entre suas composições estão “Nove de Julho”, “Bagunça”, “Fernando” e “Alma de Artista”. Seu lado pintor desenvolveu-se com Luiz Gualberto e com o grupo de jovens artistas que, munidos de telas, tintas e talento, saíam a campo para pintar. Sua obra atravessou fases impressionistas, pesquisas cromáticas e naturezas-mortas, revelando atenção à luz, à transparência e à paisagem.
Hugo Andrade, sanjoanense, pintor e literato, foi, ao lado do Dr. Joaquim José de Oliveira Neto e de Gilberto Nóbrega, um dos fundadores da Sociedade de Cultura Artística de São João da Boa Vista. Funcionário do Banco do Brasil e pintor diletante, foi aluno de Luiz Gualberto, embora não tenha participado da Primeira Exposição Coletiva. Tânia Meerson, por sua vez, aparece nos depoimentos de Eliseu Ferreira como participante ativa, embora ainda faltem dados completos sobre sua trajetória.
Eliseu Ferreira Diniz, nascido em São João da Boa Vista em 1919, talvez seja um dos exemplos mais comoventes de formação artística pela convivência direta com mestres. Menino pobre, começou a trabalhar ainda criança no ateliê de Luiz Gualberto, Araújo Lima e Alfredo Volpi, que haviam se instalado na cidade. Fazia café, limpava pincéis, carregava telas e observava a criação das obras. Dali nasceu seu interesse pela pintura. Logo esses artistas tornaram-se seus mestres, amigos e protetores. Com Araújo Lima, aprendeu a pintar florestas e árvores floridas; com Luiz Gualberto, caminhos, estradas, barrancos e casas; com Campos Ayres, a mansidão dos rios e vales.
Eliseu participou da Primeira Exposição Coletiva de Artes Plásticas de São João da Boa Vista com dezesseis telas e vendeu todas. A imprensa da época o descreveu como “um garoto aproveitável”, merecedor de apoio. Sua trajetória passou pelo Exército, pelo comércio, por Campinas, Mogi-Mirim, Araras e Santos. Embora a necessidade de sobrevivência o tenha afastado por períodos da pintura, nunca se desligou completamente dela. Manteve amizade com Alfredo Volpi e, já mais tarde, retomou a produção com intensidade. Sua pintura, marcada pela memória rural, pelas estradas tortuosas e pelos verdes e azuis das matas, preserva uma ligação sensível com os lugares por onde passou. Conhecer Eliseu Ferreira é entrar em contato com uma forma de simplicidade artística que enriquece a alma.