Memória Viva São João da Boa Vista
A vida cultural de São João da Boa Vista

Ensaio temático · Cultura

Fernando Furlanetto e o museu a céu aberto

Entre os grandes nomes da arte sanjoanense, Fernando Furlanetto ocupa lugar especial.

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Entre os grandes nomes da arte sanjoanense, Fernando Furlanetto ocupa lugar especial. Nascido em São João da Boa Vista em 5 de março de 1897, filho de imigrantes italianos, cresceu ligado ao ofício da marmoraria, já que seu pai instalara uma oficina na Avenida Dona Gertrudes. Aos 14 anos, em 1911, acompanhando a família Giannelli, partiu para a Itália para estudar na Scuola di Belle Arti “Stagio Stagi”, em Pietrasanta, na Toscana. Ali permaneceu por oito anos, convivendo com grandes artistas e recebendo formação em escultura, arquitetura, anatomia, desenho e música.

Na Itália, conquistou a Medalha de Prata na disciplina Decorazione Pittorica e recebeu diplomas de louvor, honrarias raras para um estrangeiro em uma terra de artistas. Foi chamado de “valente artista americano” pela revista italiana Lo Scultore e il Marmo. De volta ao Brasil, instalou-se em São João da Boa Vista, onde produziu obras escultóricas de imenso valor artístico e histórico, localizadas principalmente no Cemitério Municipal e na Catedral.

A criação de uma escultura, para Furlanetto, era processo rigoroso. Primeiro vinha a inspiração, depois o desenho no papel, em seguida a modelagem em argila, a fundição em gesso e, finalmente, a execução em mármore de Carrara ou bronze. Poucas de suas obras eram meramente ornamentais. A maioria se destinava a altares, capelas e túmulos, de acordo com a tradição da época. Foi assim que o Cemitério de São João da Boa Vista se transformou, em grande parte, num museu a céu aberto, onde sua arte resplandece entre alamedas arborizadas.

Sua obra-prima funerária é o túmulo de Angelina de Oliveira Bueno e sua filha Dina. O monumento narra uma tragédia familiar: Angelina, que já havia perdido dois filhos pequenos, perdeu também Dina, de apenas sete anos, vítima de apendicite aguda. A dor foi tão grande que ela se fechou em seu quarto e, vinte e oito dias depois, faleceu. A avó materna procurou Furlanetto e pediu que ele transpusesse todo esse drama para o mármore. Segundo D. Mercedes Beozzo Furlanetto, esposa do escultor, Fernando passou semanas sem dormir até encontrar a forma da obra. O rosto de Angelina foi feito com base em sua máscara mortuária, e o de Dina, em fotografias. O resultado foi descrito como uma espécie de mármore soluçante, em que os retratos são perfeitos e a emoção permanece viva.

Outras obras importantes de Furlanetto são o túmulo “Bondade”, a “Piedade” do túmulo de José Pedro de Oliveira, a monumental capela funerária em granito negro do Cel. Cristiano Osório de Oliveira e a escultura do menino Alfredo Pirajá, que se tornou objeto de devoção popular. Há décadas, mães colocam chupetas em seu pescoço como ex-voto pelo filho que deixou de usá-las. Na Catedral de São João da Boa Vista, a maioria dos altares é obra de Furlanetto, assim como o desenho do portal de ferro da Capela do Santíssimo.

Em 1971, um glaucoma impediu o escultor de continuar produzindo. O fato o entristeceu profundamente. “Para mim, o mármore é um fascínio. Eu não sei fazer outra coisa. A escultura tem sido a minha vida”, afirmou a um jornal de Campinas. Faleceu em 1975, aos 78 anos, sem conseguir executar o retrato de sua filha Ana Lúcia.

Após sua morte, parte de seu acervo em gesso correu risco de dispersão e deterioração. D. Mercedes, orientada por José Marcondes, decidiu que os modelos deveriam permanecer na cidade. Foram impermeabilizados, patinados e doados a repartições públicas, escolas e instituições. Em 1987, durante a gestão do prefeito Sidney Beraldo, foi inaugurado, no final da Avenida Dona Gertrudes, o busto de Fernando Furlanetto, obra em bronze de Vilmo Rosadas, com pedestal projetado por José Marcondes. A escolha do local tinha sentido poético: dali, o escultor continuaria a olhar o espaço onde nasceu, viveu e trabalhou.

Preservar a obra de Fernando Furlanetto é preservar um dos acervos artísticos mais importantes de São João da Boa Vista. Suas esculturas são peças originais, marcas da cidadania, da história e da cultura da cidade. A melhor homenagem que se pode prestar ao escultor é impedir que o tempo, o abandono ou o vandalismo destruam esse patrimônio.