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A música ocupa lugar central na história cultural de São João da Boa Vista. Desde os primeiros registros do século XX, a cidade revelou professores, organistas, corais, bandas, orquestras, compositores, cantores, instrumentistas e famílias inteiras dedicadas ao som. Nessa trajetória, é impossível não citar Guiomar Novaes, a grande pianista sanjoanense de renome internacional, cuja memória motivou a criação, em 1977, da Semana Guiomar Novaes.
Mas a vocação musical da cidade é anterior e mais ampla. Entre as primeiras professoras de piano aparecem Alzira Kiellander, Dona Chiquinha, Filhinha Fontão de Souza, Filhinha de Souza Marcondes, Lila Murr, Maria Amélia “Mariquinha” Westin, Zenaide Paiva e Zilah Mattos, esta também lembrada por sua bela voz de soprano. Entre os pianistas, destacam-se José Telles Guimarães, Luzaro França, Paulo Ferranti, Augusto de Freitas e José “Zeca” Ribeiro, também violinista.
A Igreja Matriz possuía um órgão de tubos de excelente qualidade e teve, entre suas organistas, Filhinha de Souza Marcondes, Zilah Mattos e Zenaide Paiva. Mais tarde, atuaram Nicolau Fulgêncio Miranda, Nazaré Nogueira, Olímpia “Ziza” Oliveira de Andrade e José Telles Guimarães. Durante muitas décadas, a Matriz abrigou o Coral Santa Cecília, além de corais femininos e masculinos. A soprano Nazareth Nogueira interpretou por anos a Verônica na Procissão do Enterro, na Semana Santa, papel também desempenhado por Sônia Bissoli.
A Casa Bulcão, de Izauro Bulcão, foi por muito tempo referência para a vida musical local, comercializando instrumentos, partituras e materiais musicais. Nas primeiras décadas, destacaram-se cantoras como Astrid Marcos, Amélia Buzon, Aracy Marques, Cota França, Isaura Mattos, Lindalva Mattos Tavares, Lúcia França, Norma Gianelli, Ruth Bulcão e Tita Mattos. Entre os instrumentistas, aparecem violinistas como Izauro Bulcão, Ziza Andrade, Emílio Caslini, Ataíde Murr, Jonathas Mattos Júnior, Zezé França, Veldo Westin e muitos outros.
José Lansac merece destaque especial. Violonista de grande talento, foi professor dos Assad e formou, na década de 1960, um quinteto com seus alunos Jorge Estevam, José Lopes, Dide Michelazzo e Walter Christensen. Sua interpretação era descrita como elegante, delicada e dinâmica. Luiz Nassif chegou a considerá-lo um dos maiores violonistas brasileiros da primeira metade do século XX, lembrando sua ligação com a música flamenca e sua correspondência com Segóvia.
A cidade também teve tradição em bandas e orquestras. Houve a Banda de Música do Clube Germânia, a Banda do Padre Josué, a Orquestra do Zandunga, a Orquestra Arrigucci e a Orquestra do Nenê Farnetani. No meio rural, cada fazenda parecia querer ter sua própria banda. A zona rural de São João chegou a reunir dezenas de bandas, entre elas as das fazendas Refúgio, Santa Helena, Santa Tereza, Matão e Aurora, além da banda do Bairro Alegre e da Estiva. As serestas também marcaram época, com nomes como Francisco Reverati, Thomazo Bitello e Tonico França.
Em 1953, foi inaugurado o Conservatório Guiomar Novaes, na Rua Benjamin Constant. Criado por uma sociedade de dez sócios, teve como diretora a professora Miriam Pipano. Também se destacou Benedicta Estevam de Camargo, a Dona Ditinha, professora de piano que por mais de sessenta anos manteve o Curso de Piano Santa Cecília. Sua filha, Marly Evangelista Estevam de Camargo, foi uma precoce pianista e compositora, falecida aos 11 anos, apontada por Armando Lameira como um dos gênios musicais mais impressionantes que conheceu.
A música popular também teve raízes fortes. Geraldo Filme, nascido em São João em 1928, tornou-se um dos grandes nomes do samba paulista. Considerado o Pai do Samba Paulista, revelou em sua obra a raiz urbana, negra e popular de São Paulo, com composições como “Mulher de Malandro”, “Vai no Bixiga pra Ver”, “São Paulo, Menino Grande” e “Silêncio no Bixiga”. João Dias, cantor de sucesso nacional, e Almir Ribeiro, eleito Cantor Revelação em 1957, também integram esse universo.
Edvina Noronha Andrade, compositora sanjoanense, teve músicas gravadas por Inezita Barroso e deixou vasto repertório, com canções como “Desce o Rio Canoeiro”, “Canção do Soldado Paulista”, “Meu São João”, “Sabiá”, “Soluça Meu Violão”, “Portãozinho” e “Menino do Papagaio”. Sua obra expressa a cultura, a beleza de sentimentos e a musicalidade da cidade.
Nos anos mais recentes, São João continuou revelando cantores, compositores, instrumentistas, grupos, escolas e fábricas de instrumentos. A cidade teve a Casa Bulcão, a Fábrica de Harmônicas Sartorello, a Indústria de Harmônicas Tôrres, os Instrumentos Musicais Sema, além de fabricantes e comerciantes ligados à música. Com tantos músicos, compositores, cantores, instrumentistas e instituições, São João parece carregar um destino musical a ser cumprido.
Em 2010, esse destino ganhou nova forma com a criação da Orquestra Jazz Sinfônica, dentro do projeto Música, Luz e Cidadania, aprovado pela Lei Rouanet. A primeira apresentação pública aconteceu em 30 de abril de 2010. Ganhou São João. Ganhou o sanjoanense.