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Guiomar Novaes nasceu em São João da Boa Vista em 28 de fevereiro de 1894 e tornou-se uma das maiores pianistas do século XX. Desde a infância demonstrou sintonia rara com a música e com o piano. Ainda criança, mudou-se com a família para São Paulo, onde estudou com Luigi Chiaffarelli, professor italiano radicado no Brasil.
Aos oito anos, já se apresentava em público com impressionante domínio técnico. Aos quinze, em 1909, por indicação de seu professor, foi enviada pelo governo paulista à França para disputar uma vaga no Conservatoire de Paris. Competiu com 387 candidatos de todo o mundo por apenas onze vagas, das quais somente duas eram destinadas a estrangeiros. O júri era presidido por Claude Debussy.
Na primeira prova, Guiomar tocou “Carnaval”, de Schumann, e a “Terceira Balada”, de Chopin. Na segunda, o júri pediu que repetisse a Balada. Ela respondeu que só sabia tocá-la exatamente da mesma maneira como havia tocado antes. Debussy respondeu que era justamente daquela maneira que o júri queria ouvi-la novamente. Guiomar conquistou a vaga com nota máxima e foi apontada como a candidata de maiores dotes artísticos.
Em 1911, depois de estudar com o concertista húngaro Isidore Philipp, diplomou-se com o Premier Prix du Conservatoire. Aos dezesseis anos, iniciou carreira internacional, estreando em Londres e Paris. A partir daí, apresentou-se na França, Itália, Suíça, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos e outros países, sempre recebendo aplausos calorosos da crítica e do público.
Sua carreira internacional durou 62 anos. Os méritos de Guiomar nunca foram questionados: foram celebrados. Sua maior característica era a nobreza da interpretação, a fidelidade estilística, a sutileza no uso dos pedais e a clareza sonora. Mais do que tocar piano, ela fazia música da mais alta qualidade artística. Diante do instrumento, parecia transformar-se.
Recebeu muitas honrarias. Em 1939, foi condecorada com a Légion d’Honneur da França. Em 1956, recebeu a Comenda da Ordem do Mérito, como embaixatriz da arte brasileira. Em 1967, foi convidada pela Rainha Elizabeth II para um recital em Londres, na inauguração do Teatro Queen Elizabeth. Também recebeu a Medalha Imperatriz Leopoldina do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.
Críticos afirmavam que ela tocava como se algum espírito lhe soprasse aos ouvidos os segredos da harmonia. Houve quem dissesse que, se tivesse nascido séculos antes, teria sido perseguida como feiticeira, tamanha a intensidade de sua arte. Em uma época em que as mulheres eram tratadas como coadjuvantes das figuras masculinas, Guiomar conquistou o mundo pelo talento, pela disciplina e pela criatividade.
Depois de uma vida inteira dedicada à música, foi enterrada ao som da “Marcha Fúnebre” de Beethoven, executada pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, sob regência de Eleazar de Carvalho. Em 1977, por iniciativa de Rageh Adib e com apoio do prefeito Nelson Mancini Nicolau e de Lito Blasi, foi criada a Semana Guiomar Novaes. Desde então, a cidade homenageia anualmente sua filha mais internacional.
Guiomar Novaes é parte incontornável da memória sanjoanense.